sábado, 3 de novembro de 2012

O silêncio

O silêncio atormenta
Mais que uma gritaria
O silêncio parece ser contra a nossa natureza
O silêncio é um turbilhão contido
A boca está fechada, mas a mente nunca,
Voamos mesmo que enjaulados
Pensamos mesmo que reprimidos
Olhamos mesmo que seja feio
Escutamos mesmo que sejam absurdos
O silêncio às vezes é mais alto que um tiro,
É mais doloroso que a bala perfurando a pele
É o abrigo que acolhe uma verdade, uma bobeira
É a tortura pra quem quer saber o que se passa atrás de olhos enigmáticos, sorrisos estranhos
É o que traz e o que tira a paz

Otávio Schoeps e Gabriela Godinho 

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Não há


Vem de um sopro as aspirações
Vão de encontro aos furacões
Em constantes vibrações
E algumas visões

As perguntas calam
As respostas se intercalam
As vozes vociferam
As pessoas se separam

As classes oprimidas,
Se oprimem
As classes dominantes,
Também se oprimem

Não há vítimas
Não há lutas
Não há vidas
Não há vitórias

OTÁVIO SCHOEPS

domingo, 30 de setembro de 2012

O artista da capa azul



Debruçado no chão chorando sobre um caderno velho, um homem que trajava uma pesada capa azul protegendo-lhe do frio, se via sem o que fazer com as inúmeras folhas brancas que o constituíam. Como num pesadelo intenso, ele cai num mundo sem fundo, ele se afoga nas próprias dores. Faz muito frio lá fora, lá dentro, apenas na capa azul é que encontrava o verdadeiro fogo, nela, crepitavam as chamas de uma fogueira perpétua. Apesar de toda desgraça, ele ainda era um cara de sorte. Apesar do cômodo vazio num apartamento muito frio, de uma alimentação a base apenas de pão e água, seus lábios machucados com o inverno, apesar de tudo, ele ainda era um cara de sorte.
  Abandonou o caderno empoeirado, agora desenhava usando os dedos gordos e roliços no chão, os molhava na tinta amarela, coloria o seu redor com um sol muito forte, por fim, dava contraste com um laranja. Era um enorme sol num céu âmbar, e do lado de fora, no céu retangular da janela, fulgura outro no meio de nuvens muito sujas. Queria tanto que o seu é que fosse real! Que saltasse do piso subitamente e se plantasse além do vidro da janela, não haveria nuvem alguma. Sonhava como uma criança, sem vergonha de seus devaneios pueris, se deliciava com a ternura que era sonhar.
Talvez, como criara o sol mais brilhante de sua vida, como o fizera reinar no céu como se fosse real, pudesse trazer ainda mais para dentro do quarto sem cor. Molhou novamente os dedos, sujou-os de verde, e do chão transbordou a natureza divina do mundo, tudo em poucos segundos, como se ele fosse Deus, ordenando à terra que germinassem as plantas. A grama não podia ser mais verde, ainda misturada com o laranja e o amarelo do sol, e da sujeira ele trouxe flores e frutos, saborosas mangas, bananas, mamões. Os dedos mergulhados na tinta, a vida mergulhada na graça da imaginação, ah, como o mundo belamente se transformava! Por baixo da capa a fogueira brilhava contente, por baixo dos sonhos se estendia a falsa realidade, ele deixara de cair no pesadelo.
Derramou no chão tudo que podia, o quarto era pequeno, mas cabia a imensidão de seu mundo. Ainda restavam-lhe as paredes úmidas, chovera naquela noite, então do forro acabaram vazando lágrimas poluídas das nuvens, mesmo assim, se ainda continha tinta nos potes cinzentos, não havia mais nada para impedir o artista de expressar seus sonhos. Assim, do cimento nasceram estrelas, como se passasse além do sol e mergulhasse no espaço azul escuro, dali, brilhavam os corpos celestes com uma incrível felicidade. Seus dedos dançaram na primeira parede, debilmente ele correu as mãos por sua extremidade. Na outra, o branco da lua era enorme, parecia que poderia entrar em suas crateras, apenas com as pontas dos dedos ele criou os detalhes, minuciosos, trouxe tanta realidade que às vezes tudo parecia deixar de ser tão infantil.
O artista continua em seu rumo agitado, ávido em terminar ligeiro tudo que planejara em sua mente conturbada. Deixava de ser tão solitário para cumprir os deveres que ele mesmo impunha. As horas se passavam, mas furtivamente os sonhos caíam de seus dedos, brotavam em todos os lugares, as horas eram como segundos quando o mundo começava a ser criado. Agora, ele suava, mesmo com o clima invernal, ao andar para lá e para cá, exclamar muitas vezes seu encanto, agachar e voltar ereto para alcançar os pontos mais altos das paredes, ao fazer tudo e mais um pouco, exigia de seu corpo a energia que não tinha. O suor pingava até a capa azul, arrastando pelo chão ainda molhado com a tinta, apagando tudo que criara com magia, assim como os sapatos de couro o faziam, ele destruía o que ele mesmo havia feito. Só não podia ver.
Ao fim das horas, as paredes estavam completas, o universo virava vida, ele se tornara o astronauta azul que resgatara a cor em todos os mundos, só sobravam as manchas de tinta em seus potes e na camisa xadrez que vestia por baixo da capa. Sorriu, satisfeito e ofegante. Bateu as mãos nas laterais de sua calça jeans, também suja pelo entusiasmo do homem. Subitamente olhou para o chão. Tudo que criara abaixo dos pés estava arruinado, se via pisando novamente no nada, caindo sem sentido no meio de um pesadelo louco.
Sentou-se aonde havia frutas frescas, aonde havia grama, mas lá, tudo se unira numa enorme mancha castanha por cima do âmbar. Como se nada pudesse piorar, a chuva havia novamente recomeçado, batendo no forro com selvageria, a tempestade comum de fim de tarde. Oh não! As lágrimas novamente vazavam das extremidades do teto, eram lágrimas que se tingiam de azul escuro, da alvura da lua, da cor dos planetas misteriosos espalhados por todo o lugar, caíam ao chão junto do rapaz.
Ele voltara a ser o homem miserável de sempre, agora, nem as tintas possuía mais, apenas o caderno jogado no canto do cômodo, que novamente se cobriria de lágrimas provocadas pela solidão.

Gabriela Godinho

domingo, 16 de setembro de 2012

A Doutrina da Besta – Segundo capítulo


Um homem, uma besta, um salvador ou uma promessa?

 Seu olhar estudou a calçada antes de adentrar no carro, que parecia todo mergulhado em negrume, sombrio e que trazia frieza em cada lugar que percorria. Naquele momento, na verdade, não tinha lugar algum para ir, nem sabia como perder-se pelos labirintos de concreto que constituíam a cidade, nada mais tinha graça, nem um gesto, um sentimento, uma via, um lugar, as coisas perderam os sentimentos havia muito tempo, removendo, talvez perpetuamente, o encanto que as coisas simples da vida traziam. Isso estava claro em seus monstruosos olhos, que carregavam mais do que dores, ambições ou verdades, carregavam as memórias, que continuamente moldavam com precisão tudo que se dizia por Álvaro Bozais. Ainda sim, quem era ele, afinal? Um homem, uma besta, um salvador ou uma promessa? E quem saberia responder? “Ninguém sabe responder”, diria algum homem temeroso até mesmo para olhar a besta por alguns segundos, diria uma mãe depressiva e um pai ausente. “Ninguém”, uma namorada estranha, um amigo da onça.
Lentamente a vida já nem fazia sentido conforme só houvesse interrogações pairando pelo ar, andando com a fumaça, dançando um tango com a poluição. Certamente já não tinha mais nada para se fazer naquele momento a não ser observar essa dança. O sol alcançava o auge do meio-dia, as nuvens começavam a engordar e escurecer lentamente, tornando-se sujas de cinza, os raios de luz que escapavam por entre elas, com seu fulgor, banhavam as cabeças que passavam pelas ruas, voltando para suas casas justamente do jeito em que Bozais descrevia. Cruzando os braços e sentando em seus sofás confortáveis, crendo talvez, que seus corpos realmente poderiam se estatelar no concreto frio. E mesmo com o temor, com suas mentes de repente tomadas por diversos devaneios, não havia o que ser feito senão esperar o desconhecido. E que outro desconhecido resolva, mas não eles.
Contudo, esse desconhecido pretendia fazer o mesmo ao ligar seu carro e voltar para o moderno apartamento que ganhara do pai, próximo ao centro da cidade. Talvez ele preferisse agora tê-lo comprado com seu próprio dinheiro, seu pai lhe dava tudo que julgava preciso, isto é, móveis, roupas caras, celulares, computadores e o que mais ele apontava e dizia “eu quero”. Amor, sorrisos e atenção não contavam. Tinha tudo para se tornar mais um mesquinho filho de papai, mas talvez sua personalidade fora além do que os pais construíam. Tornara-se um homem diferente, a besta, que friamente julgava não precisar de todas aquelas besteiras, e besteiras incluíam qualquer membro da família, qualquer laço de amor ou amizade. A memória profanada com o tempo, mas ainda sim clara, lembrava-o de tudo que fora, tudo que deveria ser e o que deixar pra trás.
Para quem vira Bozais, era difícil imaginá-lo criança, ainda mais do jeito que ele fora.

Sabe se lá quantos anos atrás... 

Um homem esguio se joga na velha poltrona, cansado de mais um dia de trabalho, deixava que os mesmos devaneios se despertassem da imaginação e passassem a correr pela sua mente, no lugar dos ecos perturbadores das últimas oito horas. Assim, ele olha o céu do começo de noite, o fim de tarde já vira das janelas do trabalho, quando teve o ímpeto de distrair-se de sua tarefa por alguns segundos, ele pôde ver o céu ser engolido por um manto de negrume, e naquele momento na sala de casa, ele via que várias estrelas foram salpicadas pelo manto, tornando-o menos macabro. A lua, por sua vez, derretia sua luz pálida pelo mundo, caía atravessando a porta da varanda e banhava um pequeno menino sentado no chão atrás da poltrona, abraçando seus joelhos, a cabeça é baixa, mas os olhos se levantam para contemplar os cabelos desgrenhados e quase totalmente grisalhos do pai, ele vê aquela cena como se fosse belíssima, como se fosse a primeira vez em que ele o via ali, parado, resmungando ou então quieto demais com seus próprios pensamentos que ninguém podia entender. Contudo, o filho tentava. Naquela sua mente pequena e confusa, ele se punha a imaginar o que se passava pela cabeça do velho.
Logo, o homem tirava um maço de cigarros e um isqueiro escarlate do bolso da camisa de listras, o fogo que acendera iluminava os pequenos olhos negros do menino, tornando-os levemente rubros. O filho observava a fumaça saindo por trás da cabeça de seu pai, que desconhecia sua presença logo ali. Era uma cena comum de uma sexta à noite, quando todos estavam cansados do dia corriqueiro e procuravam um refúgio para que tudo que acontecera pela semana fosse apagado em alguns sagrados minutos, que às vezes se tornavam horas e essas horas chegavam até uma vaga madrugada. E o pequeno continuaria ali, firme, sem emitir nem sequer o som de seu bocejo, evitando tossir ou espirrar, embora estivesse ficando doente e começasse a ser inevitável. Os pés descalços tocavam o piso frio da casa, mas cobertos pelo luar, ele fingia que o aquecia como se fossem raios solares, evitava as vertigens do sono até a hora que pode. Queria muito poder entender o homem que já adormecia com o cigarro ainda na mão direita, caída pelo braço do sofá. Queria muito saber dos seus sonhos e entender seus segredos, acima de tudo, queria que ele fosse mais seu pai do que costumava ser.
Mas aos poucos, o corpinho frágil e magro começa a tombar para o lado, mole e cansado de lutar para postar-se na posição em que estava, pedia desculpas a si mesmo, ao papai, mas tinha que deixar pra outro dia entendê-lo. De repente, uma mão fina e delicada tocara-o no ombro, segurou-o com calma e o guiou até a cama. Deitou-se de má vontade e a mãe saiu do quarto, deixando apenas que um pequeno feixe de luz adentrasse pela porta, assim, ele não sentiria tanto medo da solidão. Não tinha mais sono, então, nada restava senão observar os fantasmas imaginários movendo as cortinas e uivando nas janelas, os monstros debaixo da cama chamando seu nome e os enormes cobertores azuis protegendo-o de qualquer perigo que impregnava em seu amplo quarto. Ali, a luz da lua era impedida pelas cortinas pesadas, mas tinha certeza que na sala, aquele homem que tanto apreciava, recebia a graça de ser coberto por ela.

Voltando a sabe se lá quantos anos depois...

Finalmente chegava no estacionamento do condomínio, ocupando uma das últimas vagas, já que era raro os moradores saírem em pleno domingo, seus carros caríssimos descansavam. Possuíam horários previsíveis, dias vagos, mas o que se escondia por trás de cada porta talvez não fosse lá tão vago, era inimaginável. Embora todos os funcionários soubessem exatamente quando a srta. Souza descia para o café ou ia as compras, quando o Sr. e a Sra. Silva iam para o trabalho, até mesmo quando Bozais saía para almoçar em algum restaurante. Desconheciam o que tanto faziam quando voltavam, o que tanto pensavam após dizer-lhes um surpreso “bom dia” de resposta, tipicamente ácido e sem importância, quase que automático. Só não precisavam estudá-los e arriscar um “tudo bem?”, era mais fácil fazer seu trabalho quietos. E assim os dias passavam, as semanas corriam e os domingos duravam, consumidos pelo cansaço dos moradores. 
No fim do estreito corredor, uma das branquíssimas portas dava acesso para o apartamento de Álvaro, o número 53 era bem visto, sendo de um dourado que reluzia com as luzes ardidas tomando conta do âmbito. Além de ser habitado por um futuro homem importante para a nação. Poucos podiam dizer que estiveram lá antes, ele raramente recebia visitas, como já era de se esperar, a solidão era a única que sempre estivera ali por vontade de Álvaro e sempre seria bem vinda em qualquer dia, qualquer hora. Conforme ele aprendia a conviver com ela, a engoli-la à força durante tantos anos, começava a querê-la como quer-se alguém que já se fora, como quer-se a mais linda mulher. Sedento, ele procurava as vias mais vazias, as esquinas que quase ninguém dobra e os lugares que apenas solitários freqüentam. E vivia completamente bem de sua maneira, e continuaria vivendo por algum tempo, curto, mas tranqüilo e satisfatório.
Assim que adentrou, pôde sentir-se aliviado ao encontrá-la em todo o lugar, reinando com o silêncio, a solidão era mais que sedutora, era a única maneira de fazê-lo contente com alguma coisa. O abraçava quando ele largava seu corpo grande e desajeitado pela poltrona, apoiava a cabeça numa almofada qualquer, sentindo-se talvez, melhor que qualquer pessoa no mundo. Deixava no chão liso de madeira, sua maleta jogada sem pensar, Bozais era mais desleixado do que aparentava ser, em seus ternos e blazers mais bonitos, de sapatos engraxados por uma nova maquininha que comprara, por trás do homem bem cuidado, havia um outro que não ligava em deixar o que fosse no chão recém-encerado pela empregada. Esta vinha duas vezes por semana expulsar a solidão, maior paixão de Álvaro, e era obrigada a tirar cada meia que estivesse em lugares inusitados. Mas, aliás, ele a pagava mais do que bem. Não fazia mais que a obrigação, pensava quando levantava friamente seu olhar de um livro qualquer, para observá-la resmungando típicos impropérios.
Conforme os segundos passavam, a velha paisagem da janela se movia, os passos confusos de Álvaro perambulavam durante algum tempo, no fim, ao lado de seus pés jaziam uma taça e uma garrafa de vinho, seu corpo mole novamente jogado na poltrona. Via com uma incrível calmaria a luz laranja do sol de fim de tarde se esvaindo do quadro do corredor, esperando a noite como quem espera o dia depois de não conseguir mais dormir. Quando se viu apoderado da escuridão, esperando a lua ganhar mais altitude ao céu, não hesitou em tirar um maço de cigarros do bolso e um isqueiro do outro. Encheu a taça com seu vinho até quase passar a borda, deixava o liquido descer demasiadamente em sua garganta para tragar o cigarro entre seus longos dedos.
No mais tardar, a lua começava a cobrir sua imagem, vinda com sua luz atravessando os vidros da grande janela, a fumaça saindo por trás da poltrona, e quem sabe, o fantasma de um pequeno magricela observava-o admirado, que surgira da penumbra e se acomodara aonde encontrava o fraco luar aquecendo seu corpo pueril. 

Gabriela Godinho