E ai galera, tudo bem?
Hoje, como cada um ja se aprimorou em certa area do blog, vou recomendar mais um documentario, mas que dessa vez é um que realmente me chamou a atenção.
O nome do documentario é "The Rainbow Warriors of Waiheke Island" e no Brasil "Os Guerreiros do Arco-Iris". O filme se passa na metade dos anos 70, e fala de um grupo de pessoas dentro do Greenpeace que resolveu lutar contra os navios-baleeiros. O filme trata de maneira muito honesta a vida destas pessoas, mostra a precariedade de equipamentos, com os quais eles tinham de passar meses em alto-mar, a dificuldades e perigos da luta diaria. O filme da enfoque em algumas partes, que realmente marcam, como a equipe do "Rainbow Warrior" (Nome do barco), indo resgatar o povo de uma pequena ilha que tinha sofrido testes de bombas nucleares norte-americanas, e a morte de alguns integrantes pelo ataque violento de alguns baleeiros. O filme ainda mostra a vida atual dos agora ex-integrantes do Greenpeace, que lutaram no Rainbow Warrior, mostra a comunidade alternativa criada por eles na ilha de Waiheke (Nova Zelandia), que vive principalmente do plantio familiar e da venda de geléia feita por eles.
Para mim, o filme marcou muito, pelos ideiais "esquerdistas", mas principalmente pelo ativismo contra o abate de animais.
Existem hoje em dia varios grupos que atuam contra os baleeiros, mas como o Greenpeace hoje é uma "multinacional", gosto de citar os caras do Sea Sepherd, que realmente fazem uma luta focada e direta. Eles tem um programa no Animal Planet chamado "Whale Wars", que retrata a vida diaria deles no barco, as lutas e ataques sofridos, vale a pena!
Vejam e comentem...
Thales B. Souzedo
O blog Lâminas Verbais foi criado com o intuito de envolver formas de cultura, mas principalmente de contra-cultura: promover debates diretos e sinceros sobre o mundo, a sociedade e o Brasil. Apresentaremos aqui, também, análises de pensamentos, literatura, poesia, música, filmes, documentários e mecanismos de conscientização e reflexão. Acesse,leia, pense,repense!
segunda-feira, 25 de abril de 2011
domingo, 24 de abril de 2011
Não sei
Ideias vão e vem
E eu não sei o que fazer
Problemas vão e vem
E eu não sei pra onde correr
Angustias vão e vem
E eu não sei onde me esconder
Esculachos vão e vem
E eu não sei o que dizer
Tropeços vão e vem
E eu não sei como me manter
Tiros vão e vem
E eu não sei como me defender
E assim se passaram anos
Onde poeira e teias de aranha
Se confundem com minha pele
E hoje já não sei
O que é verdade
E o que é mentira
OTÁVIO SCHOEPS
sexta-feira, 22 de abril de 2011
Pena - O Teatro Mágico
Olá pessoal, trago a vocês, nesta sexta-feira santa, uma música da banda independente "O Teatro Mágico".
Esta música é uma crítica a funesta face comercial da arte, repleta de alusões e alegorias que remetem a forte presença do capital nas produções artísticas. O que tira por completo o caráter espontâneo da arte, transformando-a em uma mercadoria como qualquer outra.
Parte do cenário independente da musica brasileira, "O Teatro Mágico" vêm a muito tempo lutando contra a vinculação da música as grandes gravadoras e aos grandes veículos de mídia. Produzindo sua arte de modo independente e a distribuindo de modo gratuito, alcançou grande público.
Afinal, quem deve decidir como produzir e como distribuir seu trabalho artístico é ninguém mais ninguém menos que o próprio artista. Espero que gostem da postagem e que venham somar ao debate. Forte abraço a todos, tenham um ótimo feriado.
O poeta pena
Quando cai o pano e o pano cai
Um sorriso por ingresso
Falta assunto, falta acesso
Talento traduzido em cédula
E a cédula tronco é cédula mãe solteira
O poeta pena
Quando cai o pano e o pano cai
Acordes em oferta
Cordel em promoção
A prosa presa em papel de bala
Música rara em liquidação
E quando o nó cegar
Deixa desatar em nós
Solta a prosa presa
Luz acesa
Lá se dorme um sol em mi menor
Eu sinto que sei que sou um tanto bem maior
Eu sinto que sei que sou um tanto bem maior
O palhaço pena
Quando cai o pano e o pano cai
A porcentagem e o verso
Rifa, tarifa e refrão
Talento provado em papel moeda
Poesia metamorfoseada em cifrão
O palhaço pena
Quando cai o pano e o pano cai
Meu museu em obras
Obras em leilão
Atalhos retalhos e sobras
A matemática da arte em papel de pão
E quando o nó cegar
Deixa desatar em nós
Solta a prosa presa
Luz acesa
Já se abre um sol em mi maior
Eu sinto que sei que sou um tanto bem maior
Eu sinto que sei que sou um tanto bem maior
Quando cai o pano e o pano cai
Um sorriso por ingresso
Falta assunto, falta acesso
Talento traduzido em cédula
E a cédula tronco é cédula mãe solteira
O poeta pena
Quando cai o pano e o pano cai
Acordes em oferta
Cordel em promoção
A prosa presa em papel de bala
Música rara em liquidação
E quando o nó cegar
Deixa desatar em nós
Solta a prosa presa
Luz acesa
Lá se dorme um sol em mi menor
Eu sinto que sei que sou um tanto bem maior
Eu sinto que sei que sou um tanto bem maior
O palhaço pena
Quando cai o pano e o pano cai
A porcentagem e o verso
Rifa, tarifa e refrão
Talento provado em papel moeda
Poesia metamorfoseada em cifrão
O palhaço pena
Quando cai o pano e o pano cai
Meu museu em obras
Obras em leilão
Atalhos retalhos e sobras
A matemática da arte em papel de pão
E quando o nó cegar
Deixa desatar em nós
Solta a prosa presa
Luz acesa
Já se abre um sol em mi maior
Eu sinto que sei que sou um tanto bem maior
Eu sinto que sei que sou um tanto bem maior
Composição: Fernando Anitelli E Maíra Viana
Marco Aurélio
quarta-feira, 20 de abril de 2011
O Vosso Tanque General...
O Vosso Tanque General...
O Vosso Tanque General, É Um Carro Forte
Derruba uma floresta esmaga cem
Homens,
Mas tem um defeito
- Precisa de um motorista
O vosso bombardeiro, general
É poderoso:
Voa mais depressa que a tempestade
E transporta mais carga que um elefante
Mas tem um defeito
- Precisa de um piloto.
O homem, meu general, é muito útil:
Sabe voar, e sabe matar
Mas tem um defeito
- Sabe pensar
Bretold Brecht
Este é mais um poema de Betold Brecht que aqui comento, não quero me passar por repetitivo, mas a profundidade que seus escritos contém transcende qualquer tentativa de desculpas. Nesse texto Brecht nos mostra toda engenhosidade destrutiva que a humanidade pode criar, porém, mesmo com todo aparato militar e toda tecnologia a seu dispor a racionalidade humana (que esporadicamente aparece na história) continua sendo o calcanhar de Aquiles daqueles que buscam através da alienação prosseguir com suas guerras corporativas onde não importa quem ganha, só importa manter a máquina militar alimentada do sangue e da esperança dos que possuem recursos de interesse dos poderosos.
Renan Bonassa
segunda-feira, 18 de abril de 2011
"Господа и слуги"
Bom pessoal, estas 2 semanas que passaram a gente atrasou um pouco, mas após o feriado a gente tenta ser mais pontual (sei!!!). Então...hoje, a pedidos do Marco Aurelio, vulgo "Che", vou fazer a resenha de um livro que terminei de ler semana passada. O livro no caso é "Senhor e Servo" de Lev Nikoláievich Tolstói ou Leon Tolstói.
Antes de le-lo, não conhecia muito sobre Tolstói, mas o livro me chamou a atenção pela maneira tão diferente que ele trata a luta de classes.
O livro conta a historia de um senhor de terras, chamado Vassili Andreitch, e seu servo (no livro "Mujique") Nikita. A historia se passa na gélida Russia, logo após o feriado de São Nicolau. Vassili tem que fazer uma viagem de negocios, e leva Nikita consigo, para ajudar na jornada. Mas em meio a forte nevasca, se perdem, e para sobreviverem tem de deixar as castas sociais de lado, e se ajudarem como podem para conseguir passar pela noite sem morrerem congelados.
A historia é regada a tensão e ansiedade, medo e angustia, e partes realmente comoventes, com a imagem de neve e frio petrificante sempre permanentes. Uma das coisas legais de Tolstói, era que ele era um cara muito ligado com a natureza e o anarquismo. O lado da natureza esta estampado na imagem de Nikita, o obediente e solicito servo, que cuida dos animais e conhece os segredos da floresta, e o lado anarquista fica cada vez mais agudo, quando a situação demanda, e que no caso, é o ponto chave da historia.
O livro é incrivel, e é bem curto. Vale muito a pena!! É uma verdadeira lição de humildade, ainda mais em tempos tão individualistas como os nossos.
A versão que eu peguei, ainda vem com outros dois contos dele, sendo o segundo, "O prisioneiro do cáucaso" e o terceiro, "Deus vê a verdade, mas custa a revelar".
LEIAM!!!
Atenciosamente
Thales B. Souzedo
Antes de le-lo, não conhecia muito sobre Tolstói, mas o livro me chamou a atenção pela maneira tão diferente que ele trata a luta de classes.
O livro conta a historia de um senhor de terras, chamado Vassili Andreitch, e seu servo (no livro "Mujique") Nikita. A historia se passa na gélida Russia, logo após o feriado de São Nicolau. Vassili tem que fazer uma viagem de negocios, e leva Nikita consigo, para ajudar na jornada. Mas em meio a forte nevasca, se perdem, e para sobreviverem tem de deixar as castas sociais de lado, e se ajudarem como podem para conseguir passar pela noite sem morrerem congelados.
A historia é regada a tensão e ansiedade, medo e angustia, e partes realmente comoventes, com a imagem de neve e frio petrificante sempre permanentes. Uma das coisas legais de Tolstói, era que ele era um cara muito ligado com a natureza e o anarquismo. O lado da natureza esta estampado na imagem de Nikita, o obediente e solicito servo, que cuida dos animais e conhece os segredos da floresta, e o lado anarquista fica cada vez mais agudo, quando a situação demanda, e que no caso, é o ponto chave da historia.
O livro é incrivel, e é bem curto. Vale muito a pena!! É uma verdadeira lição de humildade, ainda mais em tempos tão individualistas como os nossos.
A versão que eu peguei, ainda vem com outros dois contos dele, sendo o segundo, "O prisioneiro do cáucaso" e o terceiro, "Deus vê a verdade, mas custa a revelar".
LEIAM!!!
Atenciosamente
Thales B. Souzedo
domingo, 17 de abril de 2011
Seguir a multidão
Seguir a multidão
Ou cravar os pés no chão
Histeria coletiva
Alegria e euforia
Estupros e covardia
Seguir a multidão
Ou cravar os pés no chão
Aceito com receio
O corpo corroído e possuído
Pensamento insano
Sofrimento posto e imposto
Seguir a multidão
Ou cravar os pés no chão
Linchamento sem julgamento
Exército alienado, somos um só
Mas eu sou um grão de areia
Nesse saco chamado mundo
Seguir a multidão
Ou cravar os pés no chão
A um passo da revolução
A um passo da repressão
Caminho percorrido
Sem rastro pra não ser seguido
Seguir a multidão
Ou cravar os pés no chão
Só me resta juntar os cacos
Chorar o leite derramado
As cabeças cortadas
Os corpos pisoteados
Os livros queimados
A consciência pesada e a ressaca
OTÁVIO SCHOEPS
sábado, 16 de abril de 2011
Fahrenheit 451 - Resenha
Olá pessoal, antes de mais nada queria me desculpar pelo atraso com minha postagem semanal. Tive uns probleminhas.
Agora, já mais tranquilo, trago até vocês algumas observações que fiz sobre um livro muito bacana que li e decidi compartilhar com vocês.
Fahrenheit 451 é narrado num cenário distopiótico, e tem como temática o comportamento humano e a sociedade.
Agora, já mais tranquilo, trago até vocês algumas observações que fiz sobre um livro muito bacana que li e decidi compartilhar com vocês.
Fahrenheit 451 é narrado num cenário distopiótico, e tem como temática o comportamento humano e a sociedade.
Por trás de todos os simbolismos contidos nesta obra, encontramos uma severa crítica aos rumos que a sociedade contemporânea tem tomado. No simples ato de utilizar os bombeiros - heróis - para incinerar os livros já mora uma profunda intriga.
Em sua narrativa Bradbury também aborda a questão do afastamento entre as pessoas, o fato de conversarem menos e gastarem uma boa parte de seu tempo engolindo o entretenimento barato e vazio oferecido pela mídia. Todos acomodados.
É baseando-se nesses vícios da sociedade que o autor constrói seu mundo de distopia. Um mundo onde as pessoas pouco se falam, nada pensam, nada questionam e nada observam. Um lugar vazio, onde a humanidade já se foi há tempos, e tudo que resta são sombras do que um dia se pôde chamar de pessoas.
Os poucos que pensam são caçados como animais. Ninguém sabe mais nada sobre nada, e tampouco procuram saber. Os livros são perigosos demais para circularem neste mundo, então são queimados.
Porém, tudo isso está longe demais de nosso cotidiano. Certo?
- Queimar Livros? Que absurdo.
- Viver sem conversar sobre idéias? Imaginem só.
Pois eu digo meus amigos, a crítica de Ray Bradbury nos cai como uma luva. Afinal, se pararmos para pensar, vivemos na época em que a informação circula numa velocidade absurda. Vivemos no mundo onde toneladas de noticias invadem nossa casa todos os dias.
Porém, qual é o conhecimento que se produz com tudo isso? Que tempo tem as pessoas para refletir?
Nosso mundo não está muito longe de se tornar uma cópia da distopia de Bradbury. Não estamos longe de ter quatro televisores na sala, e muito menos de passarmos o dia recebendo informação, sem acrescentar uma só letra ao que nos dizem.
Se continuarmos acomodados é algo bem parecido que iremos vivenciar. Só não creio que será necessário queimar os livros, pois nos rumos que as coisas andam não haverá ninguém capaz de lê-los.
Então amigos, fica ai o apelo. Não deixemos que nos imbecilizem. Somos homens e mulheres, somos a força da mudança neste mundo, então, que o mudemos para algo melhor!!!
Sugestões de Livros:
Orwel, George. 1984
Huxley, Aldous. Admirável Mundo Novo.
Sugestões de Filmes:
Fahrenheit 451 Direção: François Truffaut, 1967.
1984. Direção: Michael Radford, 1984.
Admirável Mundo Novo. Direção: Leslie Libman e Larry Williams, 1998.
Abraço a todos vocês leitores. E até a próxima postagem.
Marco Aurélio
Sugestões de Livros:
Orwel, George. 1984
Huxley, Aldous. Admirável Mundo Novo.
Sugestões de Filmes:
Fahrenheit 451 Direção: François Truffaut, 1967.
1984. Direção: Michael Radford, 1984.
Admirável Mundo Novo. Direção: Leslie Libman e Larry Williams, 1998.
Abraço a todos vocês leitores. E até a próxima postagem.
Marco Aurélio
quinta-feira, 14 de abril de 2011
Carta a Stalingrado
Carta a Stalingrado
Stalingrado...
Depois de Madri e de Londres, ainda há grandes cidades!
O mundo não acabou, pois que entre as ruínas
outros homens surgem, a face negra de pó e de pólvora,
e o hálito selvagem da liberdade
dilata os seus peitos, Stalingrado,
seus peitos que estalam e caem,
enquanto outros, vingadores, se elevam.
A poesia fugiu dos livros, agora está nos jornais.
Os telegramas de Moscou repetem Homero.
Mas Homero é velho. Os telegramas cantam um mundo novo
que nós, na escuridão, ignorávamos.
Fomos encontrá-lo em ti, cidade destruída,
na paz de tuas ruas mortas mas não conformadas,
no teu arquejo de vida mais forte que o estouro das bombas,
na tua fria vontade de resistir.
Saber que resistes.
Que enquanto dormimos, comemos e trabalhamos, resistes.
Que quando abrimos o jornal pela manhã teu nome (em ouro oculto) estará firme no alto da página.
Terá custado milhares de homens, tanques e aviões, mas valeu a pena.
Saber que vigias, Stalingrado,
sobre nossas cabeças, nossas prevenções e nossos confusos pensamentos distantes
dá um enorme alento à alma desesperada
e ao coração que duvida.
Stalingrado, miserável monte de escombros, entretanto resplandecente!
As belas cidades do mundo contemplam-te em pasmo e silêncio.
Débeis em face do teu pavoroso poder,
mesquinhas no seu esplendor de mármores salvos e rios não profanados,
as pobres e prudentes cidades, outrora gloriosas, entregues sem luta,
aprendem contigo o gesto de fogo.
Também elas podem esperar.
Stalingrado, quantas esperanças!
Que flores, que cristais e músicas o teu nome nos derrama!
Que felicidade brota de tuas casas!
De umas apenas resta a escada cheia de corpos;
de outras o cano de gás, a torneira, uma bacia de criança.
Não há mais livros para ler nem teatros funcionando nem trabalho nas fábricas,
todos morreram, estropiaram-se, os últimos defendem pedaços negros de parede,
mas a vida em ti é prodigiosa e pulula como insetos ao sol,
ó minha louca Stalingrado!
A tamanha distância procuro, indago, cheiro destroços sangrentos,
apalpo as formas desmanteladas de teu corpo,
caminho solitariamente em tuas ruas onde há mãos soltas e relógios partidos,
sinto-te como uma criatura humana, e que és tu, Stalingrado, senão isto?
Uma criatura que não quer morrer e combate,
contra o céu, a água, o metal, a criatura combate,
contra milhões de braços e engenhos mecânicos a criatura combate,
contra o frio, a fome, a noite, contra a morte a criatura combate,
e vence.
As cidades podem vencer, Stalingrado!
Penso na vitória das cidades, que por enquanto é apenas uma fumaça subindo do Volga.
Penso no colar de cidades, que se amarão e se defenderão contra tudo.
Em teu chão calcinado onde apodrecem cadáveres,
a grande Cidade de amanhã erguerá a sua Ordem.
Carlos Drummond de Andrade
Esse poema nos passa uma mensagem forte sobre os horrores da 2ª Guerra Mundial e sobretudo a relutância de Stalingrado, e sua vontade quase sobrenatural em defender os escombros que um dia chamaram de cidade. Este esforço conjunto por um ideal comum (Vencer as tropas alemãs) é um contraponto a apatia contemporânea, que apesar de camuflada impede-nos de tomar alguma atitude (não estou aqui defendendo luta arma no séc. XXI) que possa de fato fazer a diferença, esse espírito feroz de auto-defesa (mesmo que os habitantes de Stalingrado foram forçados a permanecer em sua cidade) perdeu-se em meio a nova ordem mundial. Uma ordem onde ter um ideal é perda de tempo, ter opinião oposta ao conformismo é sinônimo de radicalismo. A ordem muda, porém as bases permanecem, manipulação, repressão, exclusão e ódio não acabaram com a queda do nazismo, permaneceram e evoluíram ao ponto das pessoas não perceberem que ao calar-se concordam. È na imutabilidade sócio-cultural que a permanência dessa base desumana se concretiza.
“Para o triunfo do mal só é preciso que os bons homens não façam nada” Edmund Burke
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| Stalingrado - 1943 |
Stalingrado...
Depois de Madri e de Londres, ainda há grandes cidades!
O mundo não acabou, pois que entre as ruínas
outros homens surgem, a face negra de pó e de pólvora,
e o hálito selvagem da liberdade
dilata os seus peitos, Stalingrado,
seus peitos que estalam e caem,
enquanto outros, vingadores, se elevam.
A poesia fugiu dos livros, agora está nos jornais.
Os telegramas de Moscou repetem Homero.
Mas Homero é velho. Os telegramas cantam um mundo novo
que nós, na escuridão, ignorávamos.
Fomos encontrá-lo em ti, cidade destruída,
na paz de tuas ruas mortas mas não conformadas,
no teu arquejo de vida mais forte que o estouro das bombas,
na tua fria vontade de resistir.
Saber que resistes.
Que enquanto dormimos, comemos e trabalhamos, resistes.
Que quando abrimos o jornal pela manhã teu nome (em ouro oculto) estará firme no alto da página.
Terá custado milhares de homens, tanques e aviões, mas valeu a pena.
Saber que vigias, Stalingrado,
sobre nossas cabeças, nossas prevenções e nossos confusos pensamentos distantes
dá um enorme alento à alma desesperada
e ao coração que duvida.
Stalingrado, miserável monte de escombros, entretanto resplandecente!
As belas cidades do mundo contemplam-te em pasmo e silêncio.
Débeis em face do teu pavoroso poder,
mesquinhas no seu esplendor de mármores salvos e rios não profanados,
as pobres e prudentes cidades, outrora gloriosas, entregues sem luta,
aprendem contigo o gesto de fogo.
Também elas podem esperar.
Stalingrado, quantas esperanças!
Que flores, que cristais e músicas o teu nome nos derrama!
Que felicidade brota de tuas casas!
De umas apenas resta a escada cheia de corpos;
de outras o cano de gás, a torneira, uma bacia de criança.
Não há mais livros para ler nem teatros funcionando nem trabalho nas fábricas,
todos morreram, estropiaram-se, os últimos defendem pedaços negros de parede,
mas a vida em ti é prodigiosa e pulula como insetos ao sol,
ó minha louca Stalingrado!
A tamanha distância procuro, indago, cheiro destroços sangrentos,
apalpo as formas desmanteladas de teu corpo,
caminho solitariamente em tuas ruas onde há mãos soltas e relógios partidos,
sinto-te como uma criatura humana, e que és tu, Stalingrado, senão isto?
Uma criatura que não quer morrer e combate,
contra o céu, a água, o metal, a criatura combate,
contra milhões de braços e engenhos mecânicos a criatura combate,
contra o frio, a fome, a noite, contra a morte a criatura combate,
e vence.
As cidades podem vencer, Stalingrado!
Penso na vitória das cidades, que por enquanto é apenas uma fumaça subindo do Volga.
Penso no colar de cidades, que se amarão e se defenderão contra tudo.
Em teu chão calcinado onde apodrecem cadáveres,
a grande Cidade de amanhã erguerá a sua Ordem.
Carlos Drummond de Andrade
Esse poema nos passa uma mensagem forte sobre os horrores da 2ª Guerra Mundial e sobretudo a relutância de Stalingrado, e sua vontade quase sobrenatural em defender os escombros que um dia chamaram de cidade. Este esforço conjunto por um ideal comum (Vencer as tropas alemãs) é um contraponto a apatia contemporânea, que apesar de camuflada impede-nos de tomar alguma atitude (não estou aqui defendendo luta arma no séc. XXI) que possa de fato fazer a diferença, esse espírito feroz de auto-defesa (mesmo que os habitantes de Stalingrado foram forçados a permanecer em sua cidade) perdeu-se em meio a nova ordem mundial. Uma ordem onde ter um ideal é perda de tempo, ter opinião oposta ao conformismo é sinônimo de radicalismo. A ordem muda, porém as bases permanecem, manipulação, repressão, exclusão e ódio não acabaram com a queda do nazismo, permaneceram e evoluíram ao ponto das pessoas não perceberem que ao calar-se concordam. È na imutabilidade sócio-cultural que a permanência dessa base desumana se concretiza.
“Para o triunfo do mal só é preciso que os bons homens não façam nada” Edmund Burke
Renan Bonassa
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